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  • felipetazzo

Se aproveitam da minha nobreza!

Foi o que me disse o Chapolin Colorado e, ó, fortuna, como estava certo o herói dos trópicos! Nossa nobreza é constantemente abusada nas terras de cá, acredito tanto quanto sejam nas terras mexicanas, de onde veio o Chapolin - tanto temos em comum.


Saiu de moda chamar os países de "Terceiro Mundo", em oposição aos países de Primeiro Mundo (Europa, Japão, Estados Unidos...). Somos todos agora, emergentes. Ou seja, Pobre Premium™. Mas o México (assim como o Brasil) progride. Devagar e nem sempre, um passo para frente, um para o lado, um para trás, dois para frente, mas progride como um bêbado dançando o tcha-tcha-tcha, uma dança que não surgiu nem nas terras de cá, nem nas de lá (consta que o tcha-tcha-tcha é um ritmo cubano; a bebedeira é um ritmo universal mesmo).


Nós os emergentes precisamos resgatar o nosso rótulo de "Segundo Mundo". Porque a origem é uma miséria do caralho e o destino é andar por ruas limpas, seguras, iluminadas e ter todos os nossos direitos de cidadão respeitados como se fôssemos dinamarqueses, holandeses, noruegueses, uma porra assim. Não que isso represente nenhuma vantagem sobre ser um terceiro mundo, como o Brasil cabia ser.


Quando se é terceiro mundo, a pobreza é avassaladora e acachapante e como cidadãos nossos direitos são receber uma cota mensal de balas crivadas na nossa casa e nas nossas costas. Tanto que a ONU disparar alertas, interfere na nossa economia, manda pacotes de ajuda, missionários e ONGs invadem nossos acampamentos, etc, etc. Esse horror todo que você vê na TV.


Enquanto brasileiros (e aqui me compadeço do meu irmão mexicano), nós ainda não perdemos esses direitos fundamentais. Aqui (e lá) ainda se vê balas nas costas, alertas, interferências, pacotes de ajuda (o mais recente é para conter o desmatamento), missionários e ONGs. Mas, ao menos essa já não é a tônica da cultura nacional. Ainda temos o samba, o carnaval, a bunda redondinha para rivalizar com as balas e os missionários.


Mas - e isso é importante - também não temos ruas limpas como na Holanda e nem nossos direitos como cidadãos respeitados, como no Japão.


E o que é um país com um punhado de balas nas costas, meia dúzia de direitos, um tanto de missionários, umas ruas asfaltadas, ainda que fedidas senão um segundo mundo.


Ora, como o segundo mundo, nosso atual status de desenvolvimento sócio-econômico-humanitário-jurídico-filosófico, que direitos nos reservam?


Nós segundos mundistas temos boletos. Raiva. Deveres cívicos. Responsabilidade social. E supermercados com caixas de auto-atendimento.


A mais avançada das mais avanças tecnologias respinga do primeiro mundo para cá. Nós, segundo mundistas, que não teríamos saído do terceiro mundo se não tivéssemos automatizado todos os deveres (tenta sonegar imposto aqui nessas terras, tenta!) recebemos do primeiro mundo a mais alta tecnologia de passar raiva: o caixa do supermercado sem o/a caixa.


O ou A caixa do supermercado, para mim, não é um móvel ou um local ou um equipamento. Para mim, O caixa é um menino e A caixa é uma menina. Profundamente entediade em seu uniforme e sua enorme responsabilidade de fazer contas e não deixar sobrar nem faltar dinheiro naquela bandeijinha preta. Ou ao menos, esse era o encargo do atendente de cobrança terceiro mundista. No segundo mundo, essa pessoa agora é identificada como "desempregade".


E a responsabilidade do caixa bater é total minha. O que é uma merda, porque quando digo "bater", enteda-se o dinheiro dentro da gaveta "bater" com o valor dos produtos vendidos. Me seria deveras agradável ajudar o caixa (o menino) a bater na cara do proprietário da rede de supermercados. Mas nãããããão, o cara e a moça estão lá desempregades e cá estou eu sendo filmado enquanto cuidadosamente peço permissão a uma máquina para levar arroz, feijão, bacon e cervejas para minha casa. E ainda preciso pagar com o valor exato.


Ou seja, eu, o consumidor, estou fazendo o trabalho de uma pessoa que poderia estar empregade mas que agora está tentando achar rumo na vida. Bem vindo ao segundo mundo, onde eu adquiro ainda mais deveres de cidadão e uma pessoa que agora não tem condições de comprar suas comidas perde ainda mais dos seus direitos de cidadão.


A essência do segundo mundo é passar raiva.


Sigam-me os bons.

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