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  • felipetazzo

entre tapas e beijos

A vida é um constante morde e assopra. E em sendo brasileiro, devo me considerar parte do 1% dos sortudos porque o tapa e o assopra vieram com horas de diferença. Entre meus conterrâneos, se o twitter for um relato fiel, o hiato é de minutos. Às vezes, segundos, como aquele rango tailandês que arde e adocica na mesma mordida (e te lembra que você vai passar a tarde derretendo no banheiro).


Hoje o governo brasileiro gritou comigo. Eu não gostei.


Quando o governo grita, é aquela coisa: "em consonância o artigo sétimo, parágrafo octagésimo terceiro, sub item dois, seu pedido não respeita o princípio da não conformidade e portanto seu pedido foi indeferido". É um em linha reta, com voz sóbria de quem está pouco se fodendo para se vai ser ferido, indeferido, referido ou sefodido.


Aliás, áspas: seu pedido é aceito ou aprovado quando é deferido. Quando é indeferido, é rejeitado.


E áspas dois: octagésimo. Reparou? Hã? Hã? Chama números ordinais isso.


Eu passei a tarde fritando com o governo me xingando com língua lenta. O governo, quando quer, fode fofo. Fode delicadinho. Mas te fode. Aí você percebe que vai ter que trabalhar o dobro, no triplo da velocidade, só para ter que explicar algo que o governo entendeu, mas finge que não porque você precisa dançar o miudinho lá deles. Inda bem que o chat gpt tá aí para isso.


>prompt chatgpt, escreva uma justificativa para o meu projeto à luz do artigo sétimo, parágrafo octagésimo terceiro, sub item dois. <<


Control chup e control cusp, chupa governo. Tenho pena de quem vai ter que ler essas justificativas que antes eu tinha que tirar do cu e hoje eu tiro do cu artificial.


Aí eu busquei minha filha na escola e como toda criança de três para quatro anos, ela já veio com curto circuito de fábrica. Comunicação impossível e choro de chafariz. Aí ela - no meu colo - começou a gritar comigo, porque o emocional dela estava transbordando e eu meu tarra mai ou menu. E eu gritei também.


Caraio, como eu me arrependo. Que merda. Aí eu dei jantar, dei banho e a mãe foi por para dormir, todo mundo com a bateria social na vala. Na hora do soninho eu abri uma cerveja, pedi um hamburguer para furar a alimentação saudável e, por sorte, dei por encerrada a sessão tapas na cara da vida.


É, você deve ter reparado que até aqui, nenhum beijo, né? Não pense safadeza, não teve nenhum depois. Mas teve reunião para planejar quadrinhos futuros e esse, meua migo, foi a salvação da lavoura das ideias. Tem nada pior para as ideias do que apanhar da vida. Aí a gente abra o zoom e começa a trocar referências bebericando uma gelada e, ufa, tudo de volta no lugar.


Amanhã vai ser outro dia de apanhar da vida, mas pelo menos tem roteiro de quadrinho para fazer.


A gente segue andando entre tapas e beijos. E assim vou vivendo querendo e sofrendo.

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